Você sabe quem foi Paulo Freire?

por Mateus Carmargo

Publicado em 18/10/2018
Por Mateus Camargo

 

No dia dos professores e professoras é necessário parabenizar a todos aqueles e aquelas que dedicam boa parte do seu tempo na importante tarefa de apresentar o conhecimento científico em diálogo com a realidade social para crianças, jovens e adultos, nos diferentes níveis de ensino. Só profissionais da educação sabem os sabores e dissabores diários que envolvem a profissão, marcada por desvalorização social e financeira, condições inadequadas de trabalho, indiferença de número significativo de pais e mães e, recentemente, por patrulhamento ideológico através de projetos como o Escola Sem Partido.

O desconhecimento sobre a realidade das redes e estabelecimentos de ensino é tamanho que um candidato a presidência traz como proposta retirar o “ranço de Paulo Freire” da educação brasileira. Tal candidato acredita que o educador reconhecido mundialmente e falecido em 1997, seria responsável pelas dificuldades brasileiras na educação básica. Responsabiliza a política de progressão continuada, iniciada por Paulo Freire na prefeitura de São Paulo entre 1989 e 1992, como parte da reestruturação da rede municipal de ensino, pelas dificuldades verificadas para o atendimento adequado de seu público alvo no que tange à apreensão do conhecimento das letras e operações matemáticas.

O educador Paulo Freire se notabilizou por suas ações voltadas inicialmente para a Educação de Jovens e Adultos, na década de 1960, em Pernambuco. Reconhecedor da necessidade do diálogo entre professores, estudantes, o saber erudito e o popular, bem como da consideração da realidade social dos educandos no contexto do ensino, foi exilado no Chile e depois na França, em decorrência do Golpe Militar de 1964. Sua produção é reconhecida mundialmente, sendo traduzida em países como Estados Unidos, França, Bélgica, Espanha etc. Possui diversos títulos em Universidades estrangeiras e brasileiras.

Quando secretário da educação da prefeitura de São Paulo, entre 1989 e 1990, Paulo Freire coordenou uma série de transformações na educação municipal, que passava pela valorização da carreira do magistério, a aproximação entre comunidade e escola, a reorganização curricular, entre diversas outras ações. Dentre elas, a adoção do sistema de ciclos, adotando 3 momentos de avaliação da progressão: ao final da 3ª, da 6ª e da 8ª série. A proposta entrou em vigor em 1992. Baseada na educação construtivista que respeitava a diversidade das crianças, seus ritmos e necessidades, defendia que cada estudante deveria ter suas dificuldades identificadas e atacadas individual e processualmente, evitando os altos índices de reprovação e evasão presentes na escola brasileira da época. Ocorre que tal mudança de concepção educacional exige experimentação e formação docente para que não seja distorcida e promova estatísticas positivas e resultados educacionais desastrosos. Foi o que acabou ocorrendo nos anos posteriores.

Em 1996, Fernando Henrique Cardoso assume a presidência e se vê numa encruzilhada: a UNESCO ameaçava interromper os repasses de recursos para a educação brasileira caso o país não apresentasse evolução nos índices educacionais. Mario Covas, então governador de São Paulo, sugere que os estados assumam a progressão continuada iniciada na capital paulista poucos anos antes. Aceita a sugestão, transforma-se uma política de reconhecimento das necessidades individuais das crianças em “aprovação automática” das mesmas, feita para maquiar dados para as agências internacionais de fomento. Isso explica em parte as dificuldades enfrentadas em nosso país com relação ao rendimento em exames internacionais, como o PISA, que mede o desempenho de estudantes do ensino médio dos países da OCDE. Ao longo das décadas de 2000 e 2010, mecanismos de financiamento como o FUNDEF e o FUNDEB, passaram a complementar os recursos para prefeituras e estados com relação à educação básica, melhorando o acesso à merenda, ao transporte escolar e alguns outros itens básicos. Outras políticas foram iniciadas, como o PIBID, a Rede Federal de Educação Tecnológica, a Universidade Aberta do Brasil, entre outras, voltadas para o fortalecimento da formação de professores.

Paulo Freire tem sido responsabilizado injustamente por uma ação cujo objetivo era a democratização da educação. Defender seu legado neste momento histórico é responsabilidade dos educadores e educadoras que tem compromisso com a verdade e com uma educação pública, gratuita e de qualidade e para todos. Combater as fakenews torna-se, portanto, uma tarefa urgente.


Sobre o autor

Mateus Camargo

Mateus Camargo é professor do curso de Licenciatura em Educação Física e no ensino médio do 

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