Ruas de Muzambinho: Asfalto X Paralelepípedos

por Evandro Moreira

Publicado em 12/02/2019
Por Evandro Moreira
Imagem Dayanne Engenharia

Em uma cidade sem árvores, substituir paralelepípedos por afasto seria um atestado de ignorância.

E de repente as redes sociais dos muzambinhenses foram tomadas pela velha ilusão de que afastar ruas pavimentadas com paralelepípedos é sinal de progresso. Nova Resende ou Cabo Verde, não sei qual, está passando asfalto por cima da pavimentação da sua avenida principal e as fotos da obra caíram como ciscos nos olhares de muzambinhenses chorosos que, iludidos por um discurso ultrapassado, não sabem dar valor à história, à segurança, à economia e ao ambiente. Aposto, entretanto, que tal projeto na cidade vizinha, não veio acompanhado de um estudo sequer sobre os seus impactos. Afinal, o desprezo pela inteligência pragmática virou uma tônica no Brasil do século XXI.

A ilusão asfáltica vem quase sempre ancorada em argumentos que eu costumo chamar de automobilísticos. O asfalto é mais seguro para os carros, dizem uns. Os paralelepípedos danificam os carros, bradam outros. Não é incompreensível, pois, desde os anos 1950 que a noção de progresso dominante na sociedade brasileira – de cima a baixo – está atrelada ao automóvel. Nesta lógica, não é raro que a mensuração do progresso de uma cidade se dê pela quantidade de carros. O sucesso de um homem é medido pelos carros que possui. O tamanho do carro, não raro, compensa outras medidas da anatomia masculina. O brasileiro, sobretudo do interior, acha chique ficar preso no trânsito. Emissão de CO2 é prova cabal de desenvolvimento. Foi um trabalho tão bem executado pela indústria automobilística ao longo de todos esses anos que, ainda hoje, nós pagamos três vezes mais por qualquer carro de que nossos vizinhos sul, centro e norte-americanos. E que ninguém venha me dizer que é por causa de impostos. Já se sabe que não é. A indústria automobilística cobra caro dos brasileiros porque sabe que nós pagamos. A gente faz tudo pelo sonho do carro. Para nós é gratificante comprar um carro por 30 mil, pagar 60 e vender por 15. E, como o paralelepípedo estraga nossos carros, asfalto nele!

Foi assim que nossas cidades deixaram de ser pensadas para nós, que andamos, e passaram a ser pensadas para os carros. Pra que arborizar as ruas se a gente não precisa de sombra? A gente anda de carro! As árvores sujam nossos carros. Quebre esta calçada e faça um estacionamento! Derrube essas casas velhas e aumente a largura da rua!

Isto não é progresso, ou, se é, é como diz a música de Caetano: é o horror de um progresso vazio. Nossa cidade não precisa disso. Nenhum carro precisa andar a mais do que 30 por hora na Avenida Dr. Américo Luz. Nós não precisamos de uma manta asfáltica que nos aqueça ainda mais e eleve a temperatura média de uma cidade que já não tem árvores nas praças de sua avenida principal. Nós não precisamos dos problemas gerados pela falta de infiltração das águas das chuvas, que causariam enxurradas intensas na nossa periferia. Nós não precisamos de carros em alta velocidade atropelando nossas crianças e nossos velhinhos. Nós não precisamos de lombadas. Nós não precisamos de um projeto que nos leve a gastar ainda mais recursos econômicos com a manutenção de nossas vias urbanas. Nós não precisamos trocar segurança, economia, sustentabilidade e nosso patrimônio histórico pelo conforto ao dirigir, que proporciona mais ilusão de segurança, que gera mais velocidade e que resulta em mais acidentes. A gente não precisa suspirar pelas cidades preservadas do velho continente enquanto destruímos as nossas.

Fora a trapalhada que é passar asfalto em cima de paralelepípedos sem preparar adequadamente o terreno. Qualquer engenheiro formado na Uniquaquá sabe disso. E não! Nós não precisamos de prédios (Sim, porque o ideário estreito de progresso inclui, também, a verticalização das cidades).

Nós precisamos de consciência cidadã, de preservação do patrimônio histórico, de preocupações com a saúde de nossa gente e com o nosso meio ambiente. Nós precisamos de respeito com as crianças e com os mais velhos. Nós precisamos de espaços coletivos e culturais para um povo que anda a pé, sim! Nós precisamos de leitura. Nós precisamos nos desfazer da alucinação de que o progresso vem de fora pra dentro. O progresso vem de nós e não se mede em número de habitantes e nem de carros. O emprego vem com produção, mas, não necessariamente com grandes indústrias. O emprego vem quando conseguimos enxergar e valorizar nossos talentos e potencialidades comuns. O desenvolvimento econômico de qualquer pequeno município vem muito mais pela cooperação do que pela competição.

O progresso vem quando as ‘mentiras risonhas’ que nos agradam – e nas quais acreditamos apenas porque nos agradam – são substituídas por ‘verdades tristonhas’, que muitas vezes nos são indigestas e nos desafiam. O progresso vem quando deixamos de cultuar a tolice que o marketing travestiu de inteligência e nos impôs.


Sobre o autor

Evandro Moreira

 

Evandro Moreira

Licenciado em Geografia pela Faculdade Euclides da Cunha
Bacharel em Direito pela Faculdade Octávio Bastos
Especialista em Educação pela UFMG
Mestrando em Educação pela UFLA
Diretor de Ensino à Distância do IFSULDEMINAS

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