Pelos filhos de Brumadinho

por Thúlio Marques

Publicado em 31/01/2019
Por Thúlio Marques Corrêa
Imagem Dayanne Engenharia

Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019. Por volta das 13h, a cidade de Brumadinho, interior de Minas Gerais, com aproximadamente 36 mil habitantes, vira foco dos noticiários de todo o mundo. Inundada por um avassalador mar de lama, parte da cidade foi devastada pelo rompimento de uma das barragens de rejeitos minerais da empresa Vale S.A., mineradora multinacional brasileira e umas das maiores do mundo.

A consternação de todo o país foi evidente. Faz apenas três anos que a cidade de Mariana, também no interior de Minas Gerais, foi arrasada pelo rompimento de uma das barragens da mineradora Samarco, que possui parte da empresa controlada pela Vale, responsável pelo desastre em Brumadinho.

A revolta se torna evidente já que, até o momento, ninguém foi responsabilizado pela tragédia ocorrida em Mariana, onde 19 pessoas morreram e um dano ambiental catastrófico foi gerado. Os órgãos públicos responsáveis aplicaram multas à mineradora, contudo, um valor ínfimo dessas penalidades foi pago. Para maior exatidão, a matéria “Tragédia em Mariana ainda não tem culpados, e Samarco não pagou multas”, da Folha de São Paulo, informa que a Samarco foi multada 56 vezes pela Semad e pelo IBAMA. Da dívida de 610 milhões, somente foram pagos 5,6% do valor total devido.

Diante de tais dados, fica a preocupação, a angústia e o medo de novos desastres oriundos da impunidade, do descaso e da má gestão daqueles que deveriam ser os responsáveis pela prevenção de destruições como as de Mariana e Brumadinho.

Muito revoltante que somente após vidas serem ceifadas e povoados serem destruídos é que os diretores da Vale decidem tomar medidas que possam evitar tragédias. Até o momento da elaboração desse artigo, foram 84 mortos, com 64 corpos identificados, e 276 desaparecidos em Brumadinho. Não são apenas números de um desastre, mas o retrato de famílias devastadas, corações dilacerados e o sentimento precoce de uma vida inteira destruída.

As atitudes anunciadas pela Vale, como o descomissionamento das demais barragens da mineradora, que consiste na sua desativação e adoção de medidas de segurança que previnam desastres, podem ser úteis daqui em diante, mas não o são para os filhos de Brumadinho. Tampouco a “ajuda” de R$100 mil que a Vale pagará às famílias será suficiente para a restauração de toda a perda. Ela pode reconstruir casas, comprar móveis, vestuários novos, mas não conterá as lágrimas dos filhos da tragédia e nem trará de volta os familiares que aconchegavam o lar daqueles que ficam.

O que podemos esperar daqui por diante? Não sabemos ao certo. Quando a devastação foi em Mariana, achamos que não ocorreriam novas tragédias e que não houvesse lobby no Congresso com o fim de favorecer as mineradoras por meio de projetos de lei que lhes beneficiam. Existiu esperança, pois todos acreditamos que brincar com a vida humana seria demais e que dali por diante as medidas de segurança seriam reforçadas. Mas não. Tudo se repetiu. Não sabemos se acontecerá novamente. Portanto, para o agora, resta ajudar, compadecer-se, orar, rezar.... Tudo pelos filhos de Brumadinho.


Sobre o autor

Thúlio Marques Corrêa

Colunista em Política e Artes

Thúlio Marques Corrêa é advogado formado pela PUC-MG e pós-graduado em Ciências Criminais pelo Complexo de Ensino Renato Saraiva e Universidade Estácio de Sá.

Além do Direito, profissionalizou-se como ator profissional com registro junto ao Sindicato dos Artistas e Técnico ...

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