Origens de Muzambinho: disputas passadas, conflitos presentes

por Tarcísio de Souza Gaspar

Publicado em 04/06/2018
Por Tarcísio de Souza Gaspar

 

Que o chamativo Muzambinho é diminutivo aportuguesado do substantivo Muzambo, nenhum estudioso a pesquisar essa enigmática palavra duvidou. Também é comum considerá-la expressão africana, falada nas línguas de matriz banto da África Central, muito embora o seu significado permaneça obscuro. Houve um quilombo Muzambo, destruído em 1759-60 pelas expedições de caça e extermínio comandadas pelo paulista/sertanista Bartolomeu Bueno do Prado, financiadas pelo governo e pela elite branca das câmaras mineiras a fim de desbaratar (há quem prefira falar em genocídio) os quilombolas então refugiados nos sertões do “Campo Grande”. Depois disso, passou-se a referenciar um rio Muzambo, descrito em mapa da década de 1760. Não se sabe se este rio foi batizado em função do quilombo supostamente erradicado em suas margens, ou se, ao contrário, o curso d´água é que teria emprestado nome àquele ajuntamento de africanos. Talvez as duas coisas tenham acontecido.

Afinal, desde quando existiu um lugarejo habitado chamado Muzambinho? Em pesquisa recente, respondi parcialmente a essa pergunta recorrendo aos livros paroquiais da antiga freguesia de Cabo Verde. Através destes registros, é possível verificar que, pelo menos desde a década de 1780 ou talvez antes, houve um “bairro Muzambinho” (com grafia idêntica à que empregamos na atualidade), cujos moradores subordinavam-se à paróquia de Nossa Senhora da Assumpção. O bairro situava-se no caminho que ligava, no sentido noroeste, o arraial de Cabo Verde ao arraial de Jacuí, inserindo-se, precisamente, na região hoje integrada ao município de Muzambinho. Terá sido este o núcleo primitivo que dará origem, no século seguinte, à nossa cidade? Acredito que sim.

Mas a pergunta mais interessante não é essa. Sabendo-se que o bairro Muzambinho já existia no último terço do século XVIII, deve-se questionar: quais foram as origens desse núcleo? Seria ele remanescente dos mocambos destruídos nas expedições de 1760, uma espécie de filial do quilombo Muzambo? O povoado teria nascido dos escombros de uma comunidade quilombola? Até o momento, um indício decisivo responde positivamente a estas indagações. A Carta Geográfica da Capitania de Minas Gerais e partes confinantes, mapa elaborado em 1767 por autor anônimo (original guardado no Arquivo Histórico do Exército-RJ), considerado por Márcia Maria Duarte dos Santos, especialista em cartografia histórica mineira, um registro muito preciso e fidedigno, indicou a noroeste de Cabo Verde, logo depois de São Bartolomeu, o topônimo “Quilombo”, encravado onde hoje está Muzambinho, ao que se seguia, mais ao norte, o lugarejo intitulado “Dumbá”, que também se supõe ter sido núcleo quilombola.

O enigma sobre nossas origens envolve conflito pela memória e expõe as contradições de uma sociedade que, historicamente, desde a sua formação colonial, tentou sempre esconder a motivação exploratória e violenta do poder e dos privilégios usufruídos por sua classe dominante. Daí o interesse meramente folclórico com que, até o presente, se falou das origens africanas de Muzambinho. Mais que isso, a permanência de topônimos municipais e regionais como Angola, Angolinha, Muzambo, Muzambinho, Mubuca, Mandassaia, Cabo Verde, Caconde etc,, em concorrência com outros em homenagem a santos católicos e a famílias de proprietários locais (p. ex. S. Mateus, S. Esméria, S. Domingos, Almeidas, Gomes, Urias...), é indício de que a disputa pela identidade de lugares e de grupos sociais teve muito a ver com a nossa história local e regional. Descobrir por que Muzambinho manteve a sua denominação original e não se tornou cidade de São José da Boa Vista, conforme se quis fazer por aqui a certa altura do século XIX, pode ajudar a elucidar disputas passadas e, também, a compreender as diferentes identidades políticas e culturais que continuam a se chocar violentamente em Muzambinho e no Brasil atuais.           


Sobre o autor

Tarcísio de Souza Gaspar

Colunista de Muzambinho e Política
Tarcísio de Souza Gaspar é professor de História do IFSULDEMINAS, Campus Muzambinho.

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