Militarizar a escola não é solução para os problemas educacionais brasileiros

por Mateus Camargo

Publicado em 21/09/2018
Por Mateus Camargo

 

Tem ganho alguma projeção midiática nos dias atuais a proposta de militarização das escolas da educação básica, iniciativa existente em alguns estados brasileiros desde 2012. Goiás, Amazonas e, recentemente, Bahia (do governador petista Rui Costa) passaram a gestão de algumas escolas estaduais para membros das policiais militares de seus estados. O principal argumento para justificar tal movimento é que a corporação militar adota regras disciplinares rígidas, ordem e organização, favorecendo o trabalho docente. O uso de uniformes militares tornou-se obrigatório, celulares foram proibidos, cabelos curtos para rapazes e devidamente amarrados para garotas, adoção de terminologias militares em sala de aula, punições mais duras a quem não se adequa; essas tem sido as medidas adotadas em boa parte das instituições que tiveram suas gestões terceirizadas.

Os defensores da medida alegam que as notas dos estudantes no IDEB estão entre as melhores dos seus estados e que as vagas para matrícula se encerram rapidamente. No contexto atual, tais procedimentos seriam a solução para nossos problemas educacionais?

Especialistas da área da educação, a Associação Nacional de Pesquisa em Educação (ANPED) e o Fórum Estadual de Educação de Goiás afirmam que não. É fato que o desrespeito e violência na escola incomoda professores e professoras, mas pesquisas mostram não ser o principal problema, bem como existe somente em alguns contextos. Ilusoriamente, reduz-se o problema da educação a uma questão meramente disciplinar. Desta forma, basta mostrar à comunidade estudantil que os mecanismos repressores serão mais efetivos que tudo estará resolvido. Como se hoje já não houvessem mecanismos repressivos estabelecidos como suspensões e, em situações limites, a transferência do estudante para outra escola.

Pesquisa recente realizada pelo Movimento Todos pela Educação e pelo Itaú Social mostra que os problemas que afligem os professores e professoras são a falta de formação continuada (69%), a ausência de escuta por parte das secretarias estaduais (67%), restauração da autoridade e do respeito à figura do professor (64%) e o aumento salarial (62%).

Percebe-se que a militarização ataca parcialmente somente um dos problemas citados pelos docentes (o da restauração da autoridade), mas por caminhos tortuosos. Países bem situados nos rankings educacionais mundiais não adotaram a gestão militarizada das escolas como caminho para o sucesso. Além de pagar os melhores salários para professores e professoras (o Brasil paga em torno de 60% do valor pago pelos países bem colocados), a adoção de novas tecnologias em sala de aula (não é necessário proibir o uso do celular, mas disciplinar o uso), a organização do trabalho pedagógico coletivo, a adoção de estratégias pedagógicas inovadoras são a senha para os bons resultados.

A militarização baseia-se na lógica do medo e na padronização dos alunos e das instituições. Não é por acaso que defensores de projetos deletérios como o Escola Sem Partido não movem uma palha contra projetos autoritários como esse. Se olharmos quem votou a favor da PEC do teto dos gastos e é entusiasta da militarização perceberemos que não buscam melhorar a educação, mas calar qualquer possibilidade de pluralidade nas escolas, bem como de um país autônomo no cenário capitalista mundial. Seria bom que educadores e educadoras olhassem atentamente com quem os candidatos e candidatas aos cargos eletivos brasileiros “estiveram no verão passado”. Será fácil perceber onde querem chegar com medidas como a militarização das escolas.

 

Para saber mais:

https://educacao.uol.com.br/listas/33-dos-professores-estao-insatisfeitos-com-a-profissao-mostra-pesquisa.htm

http://www.anped.org.br/news/militarizacao-de-escolas-publicas-solucao


Sobre o autor

Mateus Camargo

Mateus Camargo é professor do curso de Licenciatura em Educação Física e no ensino médio do 

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