Mãe. De ferro?

Por Carlos Donizetti de Souza Júnior

Publicado em 22/05/2018
Por Carlos Donizetti de Souza Júnior

 

João Gabriel, 4 anos, estava sentado aguardando que sua mãe tomasse a vacina da gripe. Bom, pelo menos foi o que imaginava. Mesmo desconfiado, ao ver sua mãe entregando um cartão que tinha seu nome, permaneceu sentando, porém agora inquieto. Ao perguntar para mãe, quem iria tomar a vacina, esta respondeu que era ela. No entanto, foi possível ouvir um “eu não quero tomar”, o menino que agora já apresentava um semblante mais sério, com os braços cruzados e pernas encolhidas. Ao ouvir “próximo”, não teve jeito, em meio à negação e choro, sua mãe, calmamente, mas com determinação de que daquele dia não escapava, o levou para dentro. João Gabriel, aos gritos (que não duraram muito), foi vacinado com sucesso.

Nesse mês de maio é recordado o dia das mães. Um papel assumido (não necessariamente só pela mãe biológica), mas que geralmente, já vem embutido no pacote às preocupações e os medos. Por não saber se o que faz é certo; o medo de errar; as preocupações de algo não sair conforme o esperado. A relação mãe e filho já começam desde o pré-natal. Quem passa por uma gravidez, mesmo tudo indicando uma gestação normal e tranquila, pensa, ainda que no fundinho, sobre as possibilidades de não vir saudável ou de que não dará conta. Em uma pesquisa com gestantes (2004) foi observado que a grande parte das mães tinha a preocupação em relação à má formação do bebê, sendo que a maioria se tranquilizava após realizar o pré-natal.

A mãe exerce um papel importante na vida do seu bebê. Ela que será a mediadora entre os desejos da criança e o mundo a sua volta. Na década de 1940, um pediatra e psicanalista chamado René Spitz realizou um interessante experimento que observou bebês deixados em maternidades. Essas crianças recebiam alimentação e cuidados físicos, porém notava-se um grande número no atraso global do desenvolvimento, tanto emocional, quanto físico e em muitos casos levanto à morte prematura. Esse efeito foi chamado de “síndrome do hospitalismo”. Então, Spitz recomendou as enfeimeiras que também passassem a criar laços afetivos com as crianças, conversando, olhando nos olhos, desenvolvendo a maternagem e, assim, indo além dos cuidados físicos. O resultado foi que essas mesmas crianças tiveram uma excelente melhora, “voltando a viver” e a desenvolver normalmente. Um experimento que mostra a importância materna nessa relação.

Uma coisa é fato: mãe perfeita não existe. A não ser em alguns manuais vendidos por aí... Os medos fazem parte. Contudo, exige-se um esforço na criação e nisso vale lembrar tanto por parte do pai quanto da mãe. Vemos uma mudança nos padrões que antes a criança “não podia nada”, nas formas mais rígidas, e hoje “pode tudo”. É importante dizer que crianças precisam ter limites e saber que os pais são autoridade. Antes de serem amigos, são pais. Isso traz segurança e diminui a angústia delas terem que escolher tudo, sem contar o processo natural da maturidade, no qual ainda não sabem muito bem o que seria melhor para si. Na história de João Gabriel, vimos o desejo da criança em não tomar a vacina. Iria doer, é claro! A mãe sabia disso. No entanto, essa mãe prudente reconhecia o melhor para ele, mesmo que seu coração doesse ao vê-lo chorar. É para o bem. Mais valem essas atitudes (para o bem) do que “simples” palavras de amor, sem gestos verdadeiros de cuidado. Ser mãe não é uma tarefa fácil, exige tempo integral e cada uma vai lidando conforme suas capacidades. É inegável que todas elas têm seu mérito. Sem mães não existiríamos! Parabéns a todas as mães e aquelas pessoas que fazem esse papel - avós, pais, tias, madrinhas, vizinhas...


Sobre o autor

Carlos Donizetti de Souza Júnior

 

Psicólogo (CRP 04/44638), natural de Muzambinho - MG.

Carlos é graduado pela Universidade Paulista, com período cursado na Universidade do Porto, em Portugal. Especializando em Saúde Mental pela UCDB. Oferece atendimentos clínicos presenciais e orientações online. Psicólogo concursado (1ºlugar) na Prefeitur ...

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