Estradas Rurais: Muzambinho paga pela falta de planejamento e de pensamento

por Evandro Moreira

Publicado em 26/02/2019
Por Evandro Moreira

Estradas Rurais: Muzambinho paga pela falta de planejamento e de pensamento.

A população rural costuma ter poucas demandas junto aos poderes públicos municipais, apesar de ser o trabalho dessas mulheres a responsabilidade de produzir a comida que chega à mesa da gente da cidade. 

No campo muzambinhense, onde predomina a agricultura familiar em que os interesses passam longe de serem confluentes com o poderoso e danoso lobby do agronegócio nacional, quase nada se reivindica aos poderes constituídos, a não ser o óbvio: a conservação das estradas rurais. Uma demanda que parece esbarrar na completa incapacidade do poder público, que, ano após ano, fala, lamenta as chuvas, peleja, passa a máquina, mas não consegue resolver o problema.

E, se por um lado seria injusto afirmar que há simplesmente má vontade por parte dos gestores municipais – que são legalmente responsáveis pela conservação das estradas – por outro, parece preguiçoso colocar a culpa de tudo nas costas do volume de chuvas.

O mais sensato, nesse e em tantos outros casos, seria o uso da inteligência, mesmo que esta pareça estar fora de moda nos dias de hoje. 

O Brasil possui diversas universidades de vocação rural e que empreendem pesquisas valiosas que se debruçam sobre as mais complexas problemáticas que envolvem a vida e a produção econômica do campo. Pra ficar em dois exemplos próximos, UFLA e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Muitos de meus colegas Geógrafos espalhados por aí, que estudam as interações do homem com nosso planeta girante, têm se debruçado sobre esse tema de estradas rurais e desenhado soluções críveis. E nem é preciso andar tanto. O município de Muzambinho mesmo é sede de uma das maiores instituições do país, que tem expertise assentada sobre o eixo tecnológico das ciências agrárias e ambientais. Diga-se de passagem, uma instituição que as administrações municipais só tem procurado para entregar-lhe prédios e repartições que a municipalidade, por incompetência, não dá conta de gerir. Se a preguiça de nossos gestores fosse menor, suas equipes certamente buscariam soluções amparadas na vasta coleção de pesquisas científicas que muitos brasileiros insistem em produzir, a despeito de todo o descaso do financiamento público. Muitos desses pesquisadores estão aí, prontos para qualquer tipo de parceria e absolutamente ignorados pelos gestores locais.

Ao levar em conta as pesquisas às quais me refiro, os estudos publicados – e estão quase todos disponíveis a um clique – permitem afirmar que, no caso de Muzambinho, estamos pagando pela falta de planejamento. Explico. Nossas estradas foram construídas tendo como critério simplesmente a divisa entre propriedades e a viabilização do tráfego. Nessa lógica, a estrada é uma mera linha de tráfego que liga um lugar ao outro. Isso significa que, na maior parte dos casos, foram ignorados os desníveis de terreno e os tipos de solos, por exemplo. Adotados esses últimos critérios com mais estudos, muitas estradas que temos hoje sequer teriam sido abertas e tantas outras teriam traçados muito deferentes dos atuais, definidos estrategicamente. Mas não, o critério largamente utilizado foram apenas a trafegabilidade imediata e o encurtamento das distâncias. Nossas estradas não foram pensadas como um passivo ambiental (ou seja, um conjunto de realizações impactantes ao meio ambiente), como o produto de uma cultura, como uma obra de engenharia em permanente transformação, como um instrumento para organizar os fluxos e os fixos. Imagine! Isso exigiria pensamento e estudos. Isso dá trabalho. Passe a máquina, abra a estrada, ligue aqui a acolá, agrade a todo mundo e pronto! Muito mais fácil! 

O resultado dessa facilidade é a transformação do leito das estradas em um grande foco de erosão – ou seja, de perda de terra – que levará não só à inviabilidade do tráfego e do escoamento da produção, mas também numa constante dinâmica de deposição dessa terra para córregos ou rios próximos, assoreando-os e reduzindo sua capacidade de fornecimento de água. A erosão da estrada também acarretará a perda de terra produtiva das propriedades vizinhas. Uma catástrofe social, econômica e ambiental.

Com as estradas estragadas, na tentativa de reparo, a preguiça de pensar continua a fazer suas vítimas. Passar a máquina para nivelar a estrada é uma solução cara, meramente paliativa, que afunda o leito da via, produzindo enormes barrancos, e que agrava o problema na próxima estação chuvosa. Lembro-me que há alguns anos, em campanha pela reeleição, um prefeito nosso, depois de passar máquina e alargar sem o menor planejamento as vias vicinais, ostentava a atitude desastrosa, dizendo no jornal que tinha transformado as estradas rurais em “verdadeiras rodovias”. Posso garantir que, consultados, nenhum de meus colegas Geógrafos aprovaria tal feito. Não consultada a inteligência, as chuvas dos anos seguintes mostraram o quanto a ação havia sido inconsequente e prejudicial.

A pesquisa aplicada produzida pelas instituições acadêmicas mostra que existem técnicas de conservação e reparo que são muito mais baratas e eficientes, como drenagens específicas para amortecimento do impacto da água da chuva, o nivelamento do leito das estradas com a terra dos barrancos, os ‘bigodes’ que represam águas pluviais e um trabalho de plantio de arbustos no leito das vias e da conservação da vegetação nativa. Além, é claro, de um estudo urgente e necessário sobre o atual traçado e largura das estradas e as consequentes propostas de redefinição. Até o uso de informações via satélite é uma opção. E é de graça! O Google faz isso. Basta saber gerir. Mas, a cereja do bolo seria um projeto permanente de gestão compartilhada das estradas, envolvendo a força comunitária dos bairros, a percepção individual dos usuários diretos e indiretos, a inteligência produzida pelos pesquisadores (e temos instituições e pesquisas suficientes pra isso) e a implantação e gerência pelas gestões municipais de políticas públicas permanentes, em constante debate e atualização, de conservação das vias não pavimentas. Em estradas, a gestão compartilhada surge como solução porque não há dúvidas de que as dificuldades enfrentadas pelas prefeituras só vão aumentar nas próximas décadas. Tudo isso num momento em que a desinformação implantada no seio da sociedade tem feito com que a população entregue o país à gestão dos idiotas.

Tivéssemos uma gestão pública baseada na inteligência não padeceríamos encravados no barro da ineficiência e do desperdício de tempo, de esforços e de recursos públicos. A política de conservação de estradas que temos hoje nos condenará eternamente a viver ao sabor das intermitências de São Pedro, afundados em barrancos cada vez maiores. Ironias à parte, nos levará ao sério comprometimento dos recursos hídricos e a perda progressiva da capacidade do solo. Não se trata, portanto, apenas de tráfego e da já dramática situação dos ilhados moradores dos bairros ruais. O problema envolve a escassez da disponibilidade de água e de comida. Nesse caso, é preciso o uso urgente da inteligência, pois, uma patrol e um caminhão de cascalho parecem pouco para nos ajudar.


Sobre o autor

Evandro Moreira

 

Evandro Moreira

Licenciado em Geografia pela Faculdade Euclides da Cunha
Bacharel em Direito pela Faculdade Octávio Bastos
Especialista em Educação pela UFMG
Mestrando em Educação pela UFLA
Diretor de Ensino à Distância do IFSULDEMINAS

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