A farsa sobre o kit gay

por Mateus Camargo

Publicado em 28/09/2018
Por Mateus Camargo

 

Vez por outra, volta à mídia e às redes sociais o debate sobre as questões de gênero e sexualidade no Brasil, nem sempre sob bons termos. Em que pese o fato do nosso país ser um dos que mais matam gays e lésbicas no mundo (a cada 19 horas um LGBT é assassinado ou se suicida no Brasil, mais do que países do Oriente e África que punem com pena de morte os gays e lésbicas– FONTE: FGV-DAPP), não é incomum postagens e vídeos que associam pedofilia ao tema, bem como denúncias sobre um suposto “kit gay”, cuja distribuição foi suspensa pelo MEC após combate realizado por bancada religiosa no Congresso, em 2011. Mas realmente existiu um “kit gay”?

Em 2004 o Ministério da Educação (MEC) lançou o programa “Brasil sem homofobia”, voltado para o esclarecimento de estudantes e professores acerca das questões referentes à violência contra homossexuais no país de forma a promover o reconhecimento deste público e sua inclusão cidadã. Um dos objetivos era conscientizar a comunidade escolar sobre como lidar com a situação de descoberta da homossexualidade, visando o cultivo e respeito da diversidade humana. O material que compunha o projeto pode ser conferido nos links http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2015/11/kit-gay-escola-sem-homofobia-mec1.pdf e https://novaescola.org.br/conteudo/84/conheca-o-kit-gay-vetado-pelo-governo-federal-em-2011

Recentemente, um candidato a presidência ressuscitou o debate sobre o tema numa sabatina no Jornal Nacional, na qual mostrou um livro que supostamente comporia o kit vetado. Tratava-se da obra “Aparelho sexual e Cia”, escrito pela francesa Helene Bruller, publicado no Brasil pela editora Cia das Letras e que vendeu 1,5 milhão de unidades no mundo. O livro, dirigido a adolescentes que frequentam o ensino fundamental II (6º ao 9º ano), nunca fez parte de programa governamental escolar algum. O Ministério da Cultural comprou 28 unidades do livro em 2010 para bibliotecas públicas, número irrisório num país como o nosso.

Qual o papel de professores e professoras acerca de tão relevante tema? O primeiro movimento é se informar exaustivamente. A escola é local do acesso ao conhecimento científico e a abordagem do tema sexualidade faz parte dos programas curriculares estaduais e federais desde a década de 90, seja por conta das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), seja por conta dos altos índices de gravidez indesejadas. A inclusão do debate da homossexualidade é indispensável para que se evitem mais mortes e tratamentos intolerantes que levam à violência e desamor entre pais, filhos e comunidade em geral. Enfrentar o debate da pedofilia também se faz necessário visto que os dados mostram que os principais agentes deste crime são parentes e outras pessoas próximas. Foram 13 mil casos de estupro de menores de 14 anos em 2016 (Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43010109). Agir proativamente no combate à desinformação é a segunda tarefa. As fake news confundem a população não esclarecida, corroborando com a perpetuação da violência. A escola deve ser protagonista na educação de jovens e crianças sobre o tema e, por que não, de pais e demais parentes. Imiscuir-se dessa responsabilidade faz dela uma instituição apequenada frente os desafios postos na atualidade.

Por fim, um recado a pais e mães: brinquem de boneca com seus filhos; dancem, joguem videogame, pratiquem mais esportes, leiam com eles. O resultado disso será uma criança não preconceituosa e mais apta a viver num mundo tolerante e diverso. E que estará blindado contra o cometimento de falso testemunho, preceito tão valorizado nos escritos bíblicos, ainda que pessoas supostamente praticantes dos mandamentos religiosos não se cansem de fazê-lo no que diz respeito ao famigerado e inexistente “kit gay”.


Sobre o autor

Mateus Camargo

Mateus Camargo é professor do curso de Licenciatura em Educação Física e no ensino médio do 

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